Bem aos poucos todo mundo se juntou e o desenho começou e foi ficando maior e de todo mundo e mais legal e quando estava pra explodir começou uma música bonita que fez tudo ficar tranquilo e uma planta mais outra e outra e árvores bonitas e plantas pra todo mundo ficar feliz e tinha música sim que eu ouvi e gostei muito.

Desenho de Jardim é a nova jam session do Núcleo Quanta e trata do processo de descoberta e desenvolvimento do desenho e seus componentes, numa trajetória de iniciação e introdução aos conceitos da ecologia e preservação ambiental. Do ponto ao traço, da sombra à perspectiva, do volume à textura, as ações exploram os principais conceitos de composição através da performance, do vídeo e das materialidades. O desenho na folha, no espaço, o desenho das ações, o desenho de uma ideia. Os desenhos se encaminham, solados pelas canções e musicalidades, para o contato e interesse pelas plantas e flores, árvores e vegetação, que estão em cena, reformulando a brincadeira sobre as formas e figuras, embasadas então pelos conceitos da ecologia e defesa do meio ambiente.

 

Quanta Jam: Desenhos de Jardim apresenta a nova proposta do Núcleo Quanta: o jogo com plantas, pequenas árvores e demais materialidades do mundo natural recriado pelo homem (o jardim). O trabalho verticaliza a observação, contato e ludicidade dos elementos do mundo natural, por vezes esquecidos na vida das grandes cidades, ou apenas relegado à elemento decorativo. Juntamente com as técnicas e procedimentos desenvolvidos nos espetáculos anteriores, neste novo trabalho dois outros aspectos são incorporados ao jogo-instação: o desenho e a ecologia. 

 

Através de um ambiente agradável, modulado para a ação livre, com o convite ao movimento pelo espaço, música ao vivo e materialidades que estimulam a performação infantil, são introduzidos, em parceria com a dança, alguns dos principais elementos do desenho que promovem experimentações e apropriações da linguagem. Formas e pequenas narrativas são elaboradas, aportadas pela dança e pelo desenho, que viabilizam a migração na direção dos traços e padronagens naturais, estimulando o reconhecimento da  configuração existente nos elementos naturais.

 

Neste sentido, a brincadeira como dança e com o desenho busca a construção de imagens e ações de jogo com a materialidade bidimensional, inerente ao desenho. Em seguida, este sistema de jogo torna-se pequeno no contraste com a ação dos intérpretes e crianças, o que força sua terceira dimensão e migra para a performance (ou escultura compartilhada). 

 

 


De onde partimos

 

O desenvolvimento da criação artística é algo que não pode ser vivenciado de forma      isolada. Ele é um todo que envolve formas, linguagem, brincadeiras, corpo, experimentos, materiais, os lugares, as sensações, até mesmo as convivências.

 

Anna Marie Holm.

Regar o Jardim

O contato com a natureza faz parte da condição humana. A aproximação com seus elementos propicia a ampliação do horizonte e da vivência estética. Ao convidarmos as crianças a apreciar e manusear os elementos da natureza, compondo com eles, proporcionamos aos pequenos uma experiência sensorial, lúdica, cognitiva e também cooperativa. Ao compor, brincar e transitar por um jardim, as crianças despertam sua curiosidade sobre suas formas e contornos, animais e plantas; elas se expressam corporalmente por entre seus caminhos e texturas, sensibilizam-se pelos seus aromas e cooperam na escolha das formas, canteiros, arranjos e terrenos.

Explorando a composição e o desenho dos jardins, combinamos elementos naturais e plásticos na vivência artística de um espaço-paisagem. Observamos e experimentamos no corpo, nos traços, em  movimentos, em composições plásticas e tridimensionais as formas, linhas, cores, texturas, brincando e criando plasticidades a partir do próprio espaço.

 

O Desenho e a criança

O desenho é a primeira forma de expressão gráfica infantil: é uma linguagem universal. Por meio do desenho, a criança deixa no papel as marcas da sua experiência corporal, cultural e de sua passagem pelo espaço; registra suas impressões, percepções e sentimentos. O desenho infantil está  relacionado ao desenvolvimento orgânico da percepção visual e motora. A experiência dos sentidos e a interação com o mundo material leva a criança ao aprofundamento da sensibilidade estética, ao aprendizado sobre as formas, as cores e o espaço. 

A expressão gráfica do desenho relaciona-se assim ao uso do corpo, ao conhecimento e à experimentação de linhas, traços e movimentos que tornam o corpo da criança sensorialmente presente para si e para o espaço. No ato de desenhar se entrelaçam as dimensões sensório-motoras, lógicas e imaginativas. Os desenhos são signos que possuem uma variedade de formas, que se modificam e se remetem aos seus referentes culturais. Ao se movimentar e desenhar, as crianças compõem um caminho não só de aprendizagem, mas de expressividade e relação com o mundo.

Ao pegar um lápis, a criança também o experimenta como um brinquedo. Até os 2,5 anos, o seu grafismo é composto por linhas desenhadas que se sobrepõem umas às outras, formando camadas de rabiscos. Esta etapa é caracterizada pelo gesto motor, pelo prazer de se mover e traçar linhas, sem   atribuição de significados ou simbolismos. Consiste na exploração prazerosa das atividades motoras adquiridas.

A partir dessa idade, a criança começa a criar analogias entre seus traços e os objetos reais. Seu desenho passa a simbolizar o mundo e a criança enuncia o seu significado, atribuindo-lhe um nome, uma história ou uma impressão a partir da sua experiência.

 

A dança e o desenho

A dança é revelada à criança a partir de suas explorações corporais, ao descobrir o próprio corpo e suas possibilidades de movimento. O espaço e sua plasticidade, por sua vez, proporcionam o jogo sensório-motor abrindo o caminho para o movimento expressivo, que pode se desdobrar em linhas e formas pelo papel e pelo espaço, em brincadeiras e improvisações coletivas. O espaço pessoal de cada criança acompanha seu movimento e o explora em níveis, direções, planos e progressões, deslocando o corpo e os desenhos por ele criados em diferentes trajetórias (linhas retas, circulares, zigue-zagues etc) e em diferentes formas, alturas, larguras e profundidades. . A interação entre a dança e o desenho registra as marcas produzidas pelo movimento, pela exploração do corpo e do espaço, bidimensional e tridimensionalmente e em diferentes suportes.

 

Desenhos de Jardim

A partir da observação em uma tela de pontos que se configuram em linhas que, por sua vez, ganham o espaço traçando formas e figuras, as crianças são convidadas a traçar pontos e linhas com seus corpos em movimento pelo espaço. As linhas do corpo das crianças contrastam com as linhas traçadas pelos dançarinos no espaço, a partir de fios coloridos que levam do espaço para o papel.

Na superfície bidimensional de grandes folhas de papel, crianças e dançarinos continuam a explorar seus movimentos com a ajuda de brinquedos-lápis, traçando linhas e cores que se encontram, desencontram, criar percursos por entre as superfícies horizontais e verticais da sala, fugindo do papel para o espaço e do espaço para o papel.

Variados suportes são introduzidos, acompanhados da música que preenche o espaço da improvisação. Jogos de luz e sombra entre os corpos e os diferentes suportes mesclam-se às projeções de elementos e paisagens naturais e a bidimensionalidade do papel passa a ceder lugar à tridimensionalidade do objeto. Desenhos se verticalizam, texturas e formas que rementem aos elementos naturais são introduzidos, enquanto uma canção embala o jogo com a composição de perspectivas. 

Por entre os desenhos-esculturas, surgem as plantas, os insetos do jardim, erguem-se mangueiras de borracha como trepadeiras e joga-se com a figura-brinquedo de um homem-samambaia. As crianças são convidadas a compor com as plantas, que se iluminam em pontos de luz, criando um jardim luminoso, entre as delicadas criaturas que passam a habitá-lo, composta por entre os corpos das crianças e dançarinos e pelos desenhos que continuam a ser produzidos ao longo da jam session.

A projeção se tridimensionaliza, banhando o espaço da sala em água, terra, plantas e flores, ao mesmo tempo em que os sons do jardim tomam o espaço. A performance então se integra com seus elementos em rede, alimentando-se como ecossistema.

Ficha Técnica

Concepção: Suzzana Schmmidt e Wilson Julião

Direção de encenação: Wilson Julião

 

Dança e movimento: Suzzana Schmmidt

Performers: Suzzana Schmmidt, Wilson Julião e Adi Alves

 

Músicos: Leandro Goulart e Klaus Wernet

 

Figurinos: Tadzio Julião Veiga

 

Desenhos e visualidades: Adi Alves